É a minha vida, estúpidos.

Já disse aqui que não me sinto particularmente previligiado por ser governado pelas elites que me calharam em sorte. E, isto é um eufemismo.

Por estes dias parte dessas elites andam a brincar o jogo da "Euro-Europa". Bem gostava de usar outro verbo, mais respeitoso, para descrever as cimeiras muito decisivas que quase todas as semanas entreem a Europa, mas não posso. Não há seriedade nenhuma na atitude dos lideres europeus que ignoram os motivos da fundação da União Europeia, para eles evitar a guerra no velho continente é coisa pouca, pacificar os povos que ofereceram ao mundo os mais bárbaros espectáculos da sua própria destruição não é coisa que lhes tire o sono. Nem sequer fazer a humanidade acreditar na República e na Democracia os inspira a comportarem-se de forma mais evidentemente racional.

Em vez disso os nossos líderes preferem guiar-se pela fé. Quem diria que ter um estado laico nos serviria de tão pouco perante a ameaça irracional da crendice. Ninguém, mas, é exactamente nesse ponto que estamos.

 

João Pinto e Castro, assina hoje um texto particularmente lúcido no Jornal de Negócios sobre o assunto com um título que não podia ser mais esclarecedor: "Vamos experimentar enfiar o gato no microondas para ver o que acontece".

Neste texto ele lista com muita clareza as deficiências congénitas do Euro. Essa moeda que não se limita a ser diferente das outras por servir a diferentes países e correspondentes economias mas também por não dispor dos instrumentos que servem às outras para sobreviver. 

Fico convencido pelo seu texto que ele lê regularmente o blog do Paul Krugman. E, nesse caso terá lido o post do economista norte-americano ontem que versa exactamente sobre a substiuição da racionalidade pela fé.  Um e o outro, apontam como razão para a cegueira europeia a liderança pouco esclarecida de uma Alemanha que acredita piamente que a inflação dá lugar ao totalitarismo violento e irresponsável, numa alusão à crise económica da hiper-inflação que destruiu a economia alemã e alegamente abriu caminho para o triunfo de Hitler.

Não pretendo ser dono de conhecimento detalhado sobre esse momento da história para ter a certeza que a tese da CDU está certa, ou não. Tão pouco acho que foi um "outro", alemão ou não, que nos meteu nesta situação, estou nisso plenamente de acordo com o que escreveu hoje o Daniel de Oliveira. Não tenho é dúvidas nenhumas que os acontecimentos daquele momento miserável para a humanidade foram como um "cisne negro" que posteriormente tratámos de explicar e tornar até previsivel. Como tenho a certeza que o que nos acontecer a seguir terá igual tratamento, "que idiotas foram eles em não impedir aquilo" diremos depois - sobre esta ideia leiam por favor o Nassim Nicholas Taleb que ele é que sabe disto.

 

Ora. Bom, bom era não termos de passar por esse processo de reescrita da história como se os cisnes negros sempre tivessem feito parte da nossa vida, a guerra e a miséria não tivessem largado a Europa e eu tivesse sido apenas um louco utópico em ambicionar uma vida de prosperidade. Bom, bom era que abandonássemos esta fé em decisões e estratégias que nunca vimos darem bom resultado. Como a famosa austeridade preconizada pelo FMI em todas as economias que destruiu. E, tomarmos as decisões pouco populares, que talvez não permitam aos políticos ganhar as próximas eleições, mas, que há muito sabemos que são as mais sensatas. É que pode não haver próximas eleições para ganhar e aí teremos todos perdido mais do que nos podiamos permitir a perder, só porque não quisemos admitir a tempo e horas que não se ganha sempre.