"O Tê-Xis-Tê mudou"

Há cerca de 6 meses atrás criei um blog para ir partilhando mas sobretudo tomar nota do que leio e por vezes até do que penso sobre as trasnformações nos gestos essenciais de ler e escrever. Manter-me informado sobre estes assuntos é desde há algum tempo vital para mim e por isso esse blog tornou-se uma ferramenta indispensável. Com o passar dos posts juntaram-se a mim mais leitores e até escritores no blog e por isso achei que precisava de uma mudança. 

Depois de algum tempo de mudez chega a mudança. Tenho o prazer de vos anunciar que a discussão em torno da "escritura e da literatura na era da sua reprodutibilidade digital"  tem agora uma nova morada em www.texiste.com.

Agora, o blog terá mais condições para crescer e aprofundar a discussão. Pelo menos assim espero.

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Postal de Ano Novo

 

"Porque há para todos nós um problema sério... Este problema é o do medo."

Antonio Candido "Plataforma de Uma Geração"

O próximo ano há-de ser um prolongamento dos medos deste. Medos cada vez maiores e mais paralisantes. Se tomarmos consciência disso seremos um pouco mais capazes de os enfrentar. Porque o medo não se vence com heróis, o medo combate-se com as pernas a tremer e a convicção de que é preciso enfrentar esse tremor.

 

Um bom início de ano para todos. Ver-nos-emos algures nos dias desse 2012.

 

Sobre o incentivo à emigração como acto de gestão ruinosa.

Não podia não registar este momento. Consegui apenas e com muita dificuldade resmungar em surdina por respeito a mim mesmo durante o fim-de-semana. Gostava de fazer de conta que não é verdade, que não aconteceu, mas, aconteceu. E, quero lembrar-me sempre que se chegou a este ponto, daí o registo que se segue e no tom que tem.


O Primeiro-Ministro do Governo Português, Pedro Passos Coelho, sugeriu aos portugueses que emigrem. Poucos estarão a ler isto como uma novidade, ainda assim, se for o caso, peço desculpa por ser o portador de tão estapafurdia mensagem.

Permito-me querer discutir este assunto ignorando que os destinatários de tal conselho foram os professores e mesmo se emigrar é ou não uma coisa boa. Tenho a meu favor o facto de uma e outra coisa terem sido o centro da maioria das reacções que vi até ao momento. Seja dos que aconselharam Pedro Passos Coelho a emigrar ele mesmo ou de quem quis fazer de conta que também já foi emigrante. Conste que eu próprio sou emigrante, aos olhos de algumas leis.

Quero olhar para estas declarações como herdeiro e investidor do Estado português e avaliar o desempenho de Pedro Passos Coelho como suposto CEO. Pressinto que lhe agradaria a perspectiva.

É que estas declarações visam um dos mais importantes e significativos investimentos das últimas décadas em Portugal, um investimento tão avultado e até exagerado que o executivo conduzido por Pedro Passos Coelho defende que seja agora reduzido e até contratado em outsourcing, por alegadamente não ser presentemente sustentável de outra forma. Estou a falar da Educação. 

De facto a Educação de cada cidadão que em Portugal completou o ensino superior nos últimos anos consitui uma avultada despesa. Não há dúvidas que no actual sistema, mesmo com uma crescente participação em capital das famílias nesta aquisição de competências, continuou a ser o Estado quem suportou uma grande fatia do investimento. Acumulando por isso, justamente, direitos sobre a aplicação desse capital. Direitos que nem sempre aplicou da melhor maneira e que hoje regista até valores históricos de desaproveitamento, vejam-se a esse respeito os números do desemprego. Em todo o caso continuamos perante um bem escasso entre os nossos activos, os números do último censo assim o atestam.

Ora deste ponto de vista as declarações aqui discutidas constituem um crime contra o património do Estado. Pedro Passos Coelho, e os que vieram em sua defesa, pretendem incentivar e facilitar o desperdicio dessas mais valias, oferecendo-as a quem delas quiser dispor. 

Se eu acumulasse os títulos de herdeiro e accionista de outra empresa com semelhantes características escreveria agora em recomendação ao executivo da mesma que esta é uma importante oportunidade de adquirir activos muito valiosos por um preço irrisório, até ridiculo, se considerarmos outra recente estatística, sobre os vencimentos médios dos licenciados em Portugal, neste caso refiro-me apenas aos mais jovens, consciente de que as declarações afectam outros. Não sou e por isso a minha declaração vai em sentido inverso.

Quero saber como pensa o executivo português poder fazer uma oferta de valor que sustente a sua estratégia de vendas, alegadamente baseada em exportações, depois de desperdiçar os activos que lhe podiam oferecer argumentos de competividade, marginal, nos mercados em que se propõe actuar. Ou, será isto parte de uma estratégia para abandonar o Euro e cunhar uma moeda com paridade à Rupia? 

Desconfio que a minha pergunta não tenha resposta. Mas, se algum representante, nomeado ou não, do executivo que conduz tão estúpido modelo de negócios me quiser tentar responder. Pois, desde já, um sincero obrigado pelo esforço.

É a minha vida, estúpidos.

Já disse aqui que não me sinto particularmente previligiado por ser governado pelas elites que me calharam em sorte. E, isto é um eufemismo.

Por estes dias parte dessas elites andam a brincar o jogo da "Euro-Europa". Bem gostava de usar outro verbo, mais respeitoso, para descrever as cimeiras muito decisivas que quase todas as semanas entreem a Europa, mas não posso. Não há seriedade nenhuma na atitude dos lideres europeus que ignoram os motivos da fundação da União Europeia, para eles evitar a guerra no velho continente é coisa pouca, pacificar os povos que ofereceram ao mundo os mais bárbaros espectáculos da sua própria destruição não é coisa que lhes tire o sono. Nem sequer fazer a humanidade acreditar na República e na Democracia os inspira a comportarem-se de forma mais evidentemente racional.

Em vez disso os nossos líderes preferem guiar-se pela fé. Quem diria que ter um estado laico nos serviria de tão pouco perante a ameaça irracional da crendice. Ninguém, mas, é exactamente nesse ponto que estamos.

 

João Pinto e Castro, assina hoje um texto particularmente lúcido no Jornal de Negócios sobre o assunto com um título que não podia ser mais esclarecedor: "Vamos experimentar enfiar o gato no microondas para ver o que acontece".

Neste texto ele lista com muita clareza as deficiências congénitas do Euro. Essa moeda que não se limita a ser diferente das outras por servir a diferentes países e correspondentes economias mas também por não dispor dos instrumentos que servem às outras para sobreviver. 

Fico convencido pelo seu texto que ele lê regularmente o blog do Paul Krugman. E, nesse caso terá lido o post do economista norte-americano ontem que versa exactamente sobre a substiuição da racionalidade pela fé.  Um e o outro, apontam como razão para a cegueira europeia a liderança pouco esclarecida de uma Alemanha que acredita piamente que a inflação dá lugar ao totalitarismo violento e irresponsável, numa alusão à crise económica da hiper-inflação que destruiu a economia alemã e alegamente abriu caminho para o triunfo de Hitler.

Não pretendo ser dono de conhecimento detalhado sobre esse momento da história para ter a certeza que a tese da CDU está certa, ou não. Tão pouco acho que foi um "outro", alemão ou não, que nos meteu nesta situação, estou nisso plenamente de acordo com o que escreveu hoje o Daniel de Oliveira. Não tenho é dúvidas nenhumas que os acontecimentos daquele momento miserável para a humanidade foram como um "cisne negro" que posteriormente tratámos de explicar e tornar até previsivel. Como tenho a certeza que o que nos acontecer a seguir terá igual tratamento, "que idiotas foram eles em não impedir aquilo" diremos depois - sobre esta ideia leiam por favor o Nassim Nicholas Taleb que ele é que sabe disto.

 

Ora. Bom, bom era não termos de passar por esse processo de reescrita da história como se os cisnes negros sempre tivessem feito parte da nossa vida, a guerra e a miséria não tivessem largado a Europa e eu tivesse sido apenas um louco utópico em ambicionar uma vida de prosperidade. Bom, bom era que abandonássemos esta fé em decisões e estratégias que nunca vimos darem bom resultado. Como a famosa austeridade preconizada pelo FMI em todas as economias que destruiu. E, tomarmos as decisões pouco populares, que talvez não permitam aos políticos ganhar as próximas eleições, mas, que há muito sabemos que são as mais sensatas. É que pode não haver próximas eleições para ganhar e aí teremos todos perdido mais do que nos podiamos permitir a perder, só porque não quisemos admitir a tempo e horas que não se ganha sempre.

 

 

Se hoje é dia de fazer declarações sobre o fado pois cá vai a minha.

Cresci com os discos de Fado a invadirem-me as manhãs de Sábado, numa das poucas imposições da minha mãe e claro que não gostava nada daquele vendaval a arrancar-me da cama ou a atrapalhar-me a bonecada.

Uns anos depois dei por mim a querer saber quem tinha sido o Alfredo Marceneiro, a procurar as casas de fado, a descobrir que a melhor nem o era e pertencia a um brasileiro em Alfama, a apaixonar-me pelo fado vadio no Porto, a constatar que o de Coimbra em geral não me interessa, que ouvir a Amália a cantar o Barco Negro é, é, é, é algo que não sei descrever. Naturalmente quis juntar a isso tudo algum conhecimento de causa e fui procurar saber de onde vinha esse talvez lead português. Descobri as origens populares e a manipulação populista.

Para os que hoje descobriram o fado desejo uma viagem completa e cheia de emoções. Só porque é património não têm de se ficar pelos postais e fotos de circunstância, podem entrar e pedir para visitar a cave. Recomendo que incluam na pesquisa o nome de António Ferro que a história não é bonita nem feia é o que é.

 

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