Não podia não registar este momento. Consegui apenas e com muita dificuldade resmungar em surdina por respeito a mim mesmo durante o fim-de-semana. Gostava de fazer de conta que não é verdade, que não aconteceu, mas, aconteceu. E, quero lembrar-me sempre que se chegou a este ponto, daí o registo que se segue e no tom que tem.
O Primeiro-Ministro do Governo Português, Pedro Passos Coelho, sugeriu aos portugueses que emigrem. Poucos estarão a ler isto como uma novidade, ainda assim, se for o caso, peço desculpa por ser o portador de tão estapafurdia mensagem.
Permito-me querer discutir este assunto ignorando que os destinatários de tal conselho foram os professores e mesmo se emigrar é ou não uma coisa boa. Tenho a meu favor o facto de uma e outra coisa terem sido o centro da maioria das reacções que vi até ao momento. Seja dos que aconselharam Pedro Passos Coelho a emigrar ele mesmo ou de quem quis fazer de conta que também já foi emigrante. Conste que eu próprio sou emigrante, aos olhos de algumas leis.
Quero olhar para estas declarações como herdeiro e investidor do Estado português e avaliar o desempenho de Pedro Passos Coelho como suposto CEO. Pressinto que lhe agradaria a perspectiva.
É que estas declarações visam um dos mais importantes e significativos investimentos das últimas décadas em Portugal, um investimento tão avultado e até exagerado que o executivo conduzido por Pedro Passos Coelho defende que seja agora reduzido e até contratado em outsourcing, por alegadamente não ser presentemente sustentável de outra forma. Estou a falar da Educação.
De facto a Educação de cada cidadão que em Portugal completou o ensino superior nos últimos anos consitui uma avultada despesa. Não há dúvidas que no actual sistema, mesmo com uma crescente participação em capital das famílias nesta aquisição de competências, continuou a ser o Estado quem suportou uma grande fatia do investimento. Acumulando por isso, justamente, direitos sobre a aplicação desse capital. Direitos que nem sempre aplicou da melhor maneira e que hoje regista até valores históricos de desaproveitamento, vejam-se a esse respeito os números do desemprego. Em todo o caso continuamos perante um bem escasso entre os nossos activos, os números do último censo assim o atestam.
Ora deste ponto de vista as declarações aqui discutidas constituem um crime contra o património do Estado. Pedro Passos Coelho, e os que vieram em sua defesa, pretendem incentivar e facilitar o desperdicio dessas mais valias, oferecendo-as a quem delas quiser dispor.
Se eu acumulasse os títulos de herdeiro e accionista de outra empresa com semelhantes características escreveria agora em recomendação ao executivo da mesma que esta é uma importante oportunidade de adquirir activos muito valiosos por um preço irrisório, até ridiculo, se considerarmos outra recente estatística, sobre os vencimentos médios dos licenciados em Portugal, neste caso refiro-me apenas aos mais jovens, consciente de que as declarações afectam outros. Não sou e por isso a minha declaração vai em sentido inverso.
Quero saber como pensa o executivo português poder fazer uma oferta de valor que sustente a sua estratégia de vendas, alegadamente baseada em exportações, depois de desperdiçar os activos que lhe podiam oferecer argumentos de competividade, marginal, nos mercados em que se propõe actuar. Ou, será isto parte de uma estratégia para abandonar o Euro e cunhar uma moeda com paridade à Rupia?
Desconfio que a minha pergunta não tenha resposta. Mas, se algum representante, nomeado ou não, do executivo que conduz tão estúpido modelo de negócios me quiser tentar responder. Pois, desde já, um sincero obrigado pelo esforço.